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A atriz e o palhaço

junho 10, 2011

Ah, sim, foi outro dia!

 

Fui ao teatro e foi lá que vi

pelo canto dos olhos

uma peça!

Ah, não, não… Roubei o convite,

me escondi na coxia!

Tão bela a peça, mesmo o que ela não era foi bela!

E de tão afoita, tão plena, a atriz tão verdadeira, quase chorou.

Quase chorou… mas escondeu as lágrimas ao se distrair

com a platéia que passava.

O ator, assim, meio que sempre cheio de si, até atrás das cortinas,

Meio sem amor, era o palhaço da peça.

E atriz e palhaço apaixonaram-se sem perdão.

Todos que viam não entendiam, como podia ela, tão real

Apaixonar-se por um tolo que fazia piada de seu amor?

Ainda assim se amaram. Dos jeitos que podiam, ela foi repleta de luz! E dor.

E de cada um tiraram tudo o que mais podiam sem avisar quando viria o final.

E sem perceber a cortina se fechou: os expectadores não sabiam o que aplaudir.

E se deviam.

O teatro silencioso decidiu pelo vazio,

Pela curiosidade,

Pelo eterno.

E se levantaram em silêncio pensando no caminho de casa que podiam ter ficado mais para observar se a peça ia continuar. Ou se realmente havia terminado.

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O beijo no asfalto ontem à noite

junho 5, 2011

Não sou fã de Nelson Rodrigues. Quando minha irmã falou a respeito de “Beijo no Asfalto” peça para a qual faria o papel de Selminha, fiquei chocada com o conteúdo. A esposa de um rapaz que presenciou a morte de um homem na praça da matriz, e ao vê-lo morrendo, deu-lhe um beijo na boca. Também nunca tive muita paciência para Nelson. Já tive a leve impressão de que sua intenção era simplesmente chocar o público, mas com o tempo e o gosto pela literatura entendi que alguns escritores são sutis como um sussurro, que não deixa de ser tatuado nos pensamentos. Outros, como Nelson, são como um soco pesado. Ou uma piada irônica das fantasias sórdidas, desejos, vícios, escondidos das pessoas, ou dele mesmo. Também é uma maneira de permanecer nos pensamentos, mesmo que em forma de dúvida. Sim, eu prefiro os suits, Machado de Assis ou Emile Zola, Stendhal, entre muitos outros, que, apesar de escarafunchar seus personagens a fundo, não lhes dão um toque sombrio de absurdo em torrente. Mas, querendo acreditar ou não na capacidade das pessoas de terem essa capacidade sombria, Nelson teve esse dom: de nos dar o benefício da dúvida. Ontem fui assistir ao teatro, desconfiada de presenciar algo baixo e cretino. Me surpreendi. Não é um romance, o fim não é belo, e incomoda. Mas incomoda de maneira real, e se incomoda, é porque foi muito bem representado. A arte e a iniciativa devem ser celebradas e não posso negar agora: Nelson é bom para os palcos. É mais rápido de absorver, não tão doloroso quanto um livro que se estende, mas como uma dose crua e amarga de dúvida sobra quem ele mesmo, nós, talvez, ou aquele que está sentado ao nosso lado. Recomendo. Quem não tem feridas abertas, vá assistir! Vale muito a pena.

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Quasímodo da Avenida Paulista

março 28, 2011

No ônibus novamente. O destino não interessa. Os solavancos, sim. Num desses solavancos torço minha mão tentando encaixar a bolsa estropiada entre as canelas, para aliviar o peso na coluna. Talvez todos tenham torcido as mãos com a freada. Sobem um senhor e um menino, juntos, conversando, e o garoto senta no colo do senhor, que pergunta a respeito da escola, que pede para falar sobre micróbios, bactérias, germes! Um, grisalho, cabelo penteado, em mangas de camisa. O outro, ruivo de sardas, cabelos necessitando um novo corte, despenteado. O garoto o chama de papai. O ponto é perto da paulista. Observo o fundo do ônibus para verificar os lugares e quem sabe atravessar a catraca, não sem antes ouvir uma voz arrastada, forte, mas pronunciada com considerável dificuldade: “O b r i g a d o! B  o  m   s  er  v i ç o…” O dono da voz é um homen corcunda, mas mesmo assim, muito alto e corpulento. Camiseta amarela e calças brancas.  Camiseta puída e as calças dobradas. Calças encardidas, mas nem tanto pra achá-lo abandonado de qualquer higiene. Não consegui entender se a barra estava dobrada porque as pernas das calças eram longas ou curtas demais. Estava sem meias, e um pedaço da pele de seus tornozelos  e dos calcanhares eapareciam enfiados num sapato marrom de couro judiado e sola gasta. O sapato era velho, cheio de vincos e rachaduras. O cinto que segurava suas calças era longo demais, de couro, já mole pelo uso, com um belo pedaço sem apoio, sem classe e com toda a simplicidade e falta de vaidade. Um dos pulsos abraçado por um relógio preto, que pensei nem funcionar. Ele era alto e macilento, mas não gordo. A pele perecia mole.  Era grisalho e o cabelo estava até que bem cortado. Pode ter sido um homem imponente e forte. Ou apenas um homem forte cujo peso do tempo curvou. Outra coisa que o tempo deve ter curvado: sua língua, pois se enrolava com dificuldade e força na intenção de pronunciar as letras grudadas umas nas outras. A julgar por sua roupa e a pasta de trabalho murcha de coisas, que levava a mesma mão do relógio, o couro da mesma ordem do sapato e do cinto… A julgar pelo modo como levemente mancava e mantinha a corcunda na camiseta amarela puída, o tempo também pode ter impiedosamente curvado a linha  de sua razão. Mas o segui com os olhos enquanto atravessava a rua no farol correto e devo confessar que fiquei positivamente chocada com sua educação. Há pessoas no completo domínio da razão que sequer agradecem a Deus a comida que levam à boca e o dia que se levanta, quanto mais se dirigir ao motorista de um ônibus para lhe agradecer a corrida cheia de solavancos. O que tem aquele homem? Gostaria de ter abandonado o meu caminho, configurado de obrigações diárias, e segui-lo, assim como a outras figuras que atravessam meus trajetos e me injetam perguntas simples nas veias, que gostaria de descobrir por um simples motivo: vale a pena a compaixão que sinto por essas pessoas? Por esse homem? Vale a pena a intenção genuína que tenho de ajudar sem cobrar e sem hesitar?

Será que ele tem família? Onde  levou aquela pasta? O que havia lá dentro? Será que é má pessoa? Será que é muito boa pessoa?

E assim segue a vida, impessoal, sem riscos e sem graças na cidade grande. Neste dia, mais sem riscos que sem graças.

Nunca se sabe…

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Anônimos

março 17, 2011

Eu sangro.
E eu enfio seu dedo na minha ferida.
Você não vê que eu o empurro pra perto, sequer sabe
o peso do seu punho carimbado entre meus pulmões.
As bochechas estão rosadas desse ar frio que respiramos.
Eu respiro em compassos ardidos.
Tento poupar o pouco que consigo da sobriedade que sempre tive,
E não bebi uma gota sequer daquele vinho sobre a mesa.
Não bebi nada daquele vinho barato.
Mas a sobriedade se vai, à medida que sangro.
E nunca mais empalideço.
À medida que bebo um pouco mais de você.

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A voz do café

novembro 10, 2010



            É o café na casa da vó, mas já é o dia em que eu sei opinar e questionar, não só ouvir, e lá me dão ouvidos e sou quem sou sem precisar me preocupar em ser ou não ser, porque se na família não pudermos ser verdadeiros, partidarios da verdade, o que mais seremos pra nós mesmos?

                A louça é simples, algumas xícaras são de bom gosto, mas já tem a alça quebrada. O pires não combina com a xícara, o pão é italiano, e todos tiram um naco sem simetria, a faca serrilhada vai de encontro à manteiga, conforme tios e tias, primos, vô e vó vão falando e aos goles e dentadas vão o pão, a manteiga e o café. Vão longe, e vão as conversas. O vô encosta à soleira da porta. Fica irritado se o contrariam. A vó sempre tem um sorriso tímido no rosto, como se sempre tivesse alguma coisa por dizer, uma vivacidade nos olhos. E quando falam todos param pra ouvir. As vozes vão cessando, mesmo que as opiniões sejam fortes, e sempre foram. Até que chegue a noite. Até que na escuridão possamos enxergar estrelas. Até que entendamos e até relembremos do que é tão fácil de esquecer: o que é referência, exemplo, valor.

                E seu eu decidir hoje encostar a cabeça no ombro da vó e chorar de saudades ela vai chorar também e se eu pedir pro vô e pra vó rezarem por mim eu sei que vão, eles e mais as tias e tios, e os primos vão torcer uns pelos outros, com franqueza. O abraço é aberto, apesar de às vezes tímido. A batalha da vida não deu espaço demais para carinhos demasiados, mas ao que realmente é construtor. Nós sabemos da luta diária e do suor honesto, nós dividimos o que somos, multiplicamos o que crescemos. E se minha mãe precisar esperar pra eu dormir, por causa do compromisso, ela vai esperar. Se a irmã precisar ficar acordada por causa do lobo, ela fica. E quando crescemos, as coisas tomam proporções diferentes mas o carinho e o cuidado é o mesmo. Lá fora é que é cruel. Lá fora é que me confundo. A voz de lá de fora é forte, mas não é tão sutil e penetrante quanto a voz do café.

                Se hoje eu desconfiar das pessoas do dia a dia, próximas na convivência, se eu quiser me esconder dos olhos e das línguas, se eu quiser me encolher como criança novamente, eu posso, e tenho cafuné. Eu sei que posso. Se eu achar que não entendo mais como funciona a lógica das relações de hoje em dia, e estiver desacreditada do sucesso e do futuro, da felicidade e da verdade, do sorriso sincero e das coisas sem interesse, das palavras inteiras e recados amorosos, apesar de severos… Se um dia eu estiver desacreditada da simplicidade e singeleza do amor… Eu vou querer uma xícara de café sem alça, um pires de outra cor e tamanho, um café forte e escuro, um pão com manteiga. E a minha família.

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Maçã

maio 9, 2010

 

Foi quando o homem olhou para suas mãos dando-se conta delas. Percebendo-as atreladas ao corpo, depois de terem-no ajudado a realizar alguma façanha, deu-lhes um nome certo, e com isso também lhes ofereceu função e importância. Mão. E à partir de então pernas são pernas e olhos são olhos, nas sílabas e cadências convenientes e oportunas. Num dia e hora em que não sei se chovia ou se os pássaros migravam ou se o fruto caía seco ao chão, ele reconhece o além de si: as coisas tem nomes e deixam de ser meramente coisas. Desde então o outro é vizinho. Existe também sim e existe não. Existem as trilhas e as estações, existe o rebanho e a margem do lago. Existe o abrigo e a extração e mesmo assim o equilíbrio luta por permanecer intacto. E crescem em número e idéias. No dia em que não sei se fazia sol ou morria o cervo, se a planta colhida fora veneno ou alimento, ele tomava consciência de que era homem e que podia. Que podia mais. E de quando lhe foi reconhecido o poder de suas próprias mãos, engenhocas, acordos e transformações – as coisas com nomes podiam ter mais que uma única função e transformavam-se, como a madeira em lenha, pilar e cetro. E como lhe fosse dada a simetria de um corpo belo e complexo, da mesma forma que existe o sim como oposto do não, da obra prima do equilíbrio veio o desequilíbrio. Da maçã o homem tomou gana de interrogar o que lhe fora fornecido, advogado do diabo. O homem raciocinou, sabe-se lá dia e  hora exatos, até porque calendário era lua e sol,  era escuridão e luz. Desde a primeira vez que o homem tomou consciência de seu poder de decisão, chegamos aqui: e nunca mais houve paz.

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Miudezas

abril 15, 2010

Miúdas

Coisas finitas, poeiras – na palma dessas mãos.

Miúdos

 Ânimos – dias e noites. Dias e noites. Dias e noites.

Planos. Dias planos, noites rasas.

Imponentes sonhos

em miúdas atitudes, e espaçadas.

Grandiosos sonhos.Calados por condição.

Planos analfabetos.  

Povo. Ah, povo.

Miúdo.