Senhor Tempo,
É tão velho quanto tartarugas enrugadas e escondidas em seus cascos. Mil coisas sempre a fazer, sendo o sempre uma dessas partículas finitas de você. É bom que saiba, sua questão de não esperar é o que mais desagrada, reclamação em coro! E venho lhe avisar. Tão rabugento que ao tentarmos abraçar é feito papai de barba por fazer. E se é que ainda existem pitos, você, de marcha acelerada, mas nunca a correr, resmunga em pitos e dedo em riste aos lerdos que desacompanham teus compassos e estalos.
Tua casaca grossa não esconde! Corcunda de nariz empinado, resmunga sem tornar teus olhos cegos para sequer tentar nos ver. Ledo erro: faz que nas pegadas de teus passos pesados ou mesmo leves, nos nossos calendários é que está seu legado. Nos relógios de sombra, nas palmas da mão levadas ao sol acima do horizonte. Nas folhas de diários, em tudo o que cresce e ainda resiste a você, em tudo o que permanece. Petulante, o chamarei infeliz e inconformado, consciente de conter em si frascos de seu próprio veneno, de não poder corrigir tudo o que abarca na condição de ser seu próprio inimigo.
Velho vincado por si mesmo, de dobras e entranhas secas. Tempo, velho de cachimbo e cadeira de madeira rachada, velho de esquinas, sinuca e cachaça, lhe tenho broncas, mas também penares. Lhe escrevo curiosa e sincera: embasbacada entre a flanerìe e o que mais lhe dizer. Que mais dizer? Mordo a língua, talvez também cuspa para cima: lhe admiro! Sirvo-me de você como quem se acostuma com algumas cicatrizes: na época horríveis, agora contos que fazem rir, desenhos que há tempos rabisquei e nunca mais mexi, fotografias e livros que estão guardados em caixas, e vão sempre a ressuscitar. Aí é que você está, em silêncio e cabisbaixo, andando um pouco mais devagar. Um dia, ainda! Lhe passo uma xícara quente de café! Mas está sempre afazeres, não é mesmo?
Sei, mas não entendo! Nem eu nem eles. Que de certa maneira é humano e já não questiono ser divino, posto que já é um deus: razão de reter em si a certeza que ninguém tem: amanhãs! E por saber o que mais ninguém vê, despoja, com segredos que são só de você, a grandeza humana. Velho de sarjetas, é o que é! Não que razão lhe pertença, mas ponho este discurso em febre: tanto faz e tanto oscila, que um dia finalmente consegue acordar remorsos, lembranças, saudades e tristezas. Consegue de alguma forma inexplicável provocar perdões e destruir realezas. De riquezas, Tempo, sei que é desprovido. Seus pés são nus, cheios fissuras e veias.
Não vou escapar, por fim, de lhe lembrar da humildade, que lhe foge aos gestos, mas existe tão forte como os seus braços de segundos que me embalam. Em você tudo perece, em você tudo nasce e envelhece. Faço cartas como quem nada quer dizer, mas tenho aqui uma pergunta, e para ela, me ponho ao mesmo pé que você. Qual sua serventia senão renovar o que já venceu? Senão odiar tudo quanto é tão empoeirado quanto você? Sei que tuas sobrancelhas arqueadas e teu cenho franzido são carimbos do teu jugo: todo o bem e todo o mal que faz, por castigo de Deus, não desviam de você. Está enrugado, Tempo, Tempo, mano velho, e o peso dos dias que passam se acumulam nos seus ombros.
E diz então, rabugento, o que mais podemos fazer senão aceitar como um avozinho corcunda mal-acomodado no banco da praça vazia, aceitar a fatalidade e o pão de cada dia?
