Alguns larápios cruzaram a esquina na noite passada, muito, muito perto do pequeno esconderijo de Amata. A insônia a cortejara, a janela a distraíra daquele chiado entranhado da tela da TV – o apartamento sempre penumbrado quase rarefeito de um ar parado e frio que congelava as narinas – então vira os larápios que atravessavam a rua naquela esquina. Bem ali, vê? Certamente satisfeitos de suas arruaças, riam chutando pedras e gatos que cruzavam seus caminhos. Ela estava descalça.
As vielas da vizinhança guardam segredos desses degredos animais, desses arroubos noturnos. A janela é tão alta, mas tão próxima da rua… E nos telhados das casinhas, além dos pios das corujinhas, um luar vagabundo. Naquela noite de ontem esta sala estava vazia, e ela não mentiu, sabemos que há tempos não conseguia dormir. Lhe vieram à vista esses gatunos pra aliviar a tez, quase descera as escadas, ‘descalça mesmo, viu?’, mo disse, para segui-los e ver onde dava o caminho dos desatinos.
Que tanto senso comum, que tanta vida tragada pelas madrugadas por horas a fio – fio que não se tece. Que tantos argumentos treinados à frente dos espelhos pra convencer-nos! A insônia da noite de ontem – e anteontem, e antes, e antes mais – a insônia dela calou, e ainda cala todos esses argumentos. E agora fico a procurar com a retina posta nas dobras que fizemos nas esquinas e auscultar as plaquinhas com os nomes das ruas, tentando descobrir onde será que Amata está.
Ainda hoje de manhã, quando cheguei, ela me fazia torradas e lhes deitava mel, e eu a observava de olheiras manchadas e cabelo um tanto descomposto que não a deixariam me mentir. Ficou acordada? Disse-me que ficara, e que vira larápios naquela esquina, e que fizeram bagunça, que quisera saber por onde andavam agora, que não os acusa de nada, pois nada carregavam. Que se sentira enfadada dessa vida sem nada.

