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Sobre Gatunos e Meninas

Agosto 26, 2008

 

Alguns larápios cruzaram a esquina na noite passada, muito, muito perto do pequeno esconderijo de Amata. A insônia a cortejara, a janela a distraíra daquele chiado entranhado da tela da TV – o apartamento sempre penumbrado quase rarefeito de um ar parado e frio que congelava as narinas – então vira os larápios que atravessavam a rua naquela esquina. Bem ali, vê? Certamente satisfeitos de suas arruaças, riam chutando pedras e gatos que cruzavam seus caminhos. Ela estava descalça.

As vielas da vizinhança guardam segredos desses degredos animais, desses arroubos noturnos. A janela é tão alta, mas tão próxima da rua… E nos telhados das casinhas, além dos pios das corujinhas, um luar vagabundo. Naquela noite de ontem esta sala estava vazia, e ela não mentiu, sabemos que há tempos não conseguia dormir. Lhe vieram à vista esses gatunos pra aliviar a tez, quase descera as escadas, ‘descalça mesmo, viu?’, mo disse, para segui-los e ver onde dava o caminho dos desatinos.

Que tanto senso comum, que tanta vida tragada pelas madrugadas por horas a fio – fio que não se tece. Que tantos argumentos treinados à frente dos espelhos pra convencer-nos! A insônia da noite de ontem – e anteontem, e antes, e antes mais – a insônia dela calou, e ainda cala todos esses argumentos. E agora fico a procurar com a retina posta nas dobras que fizemos nas esquinas e auscultar as plaquinhas com os nomes das ruas, tentando descobrir onde será que Amata está.

Ainda hoje de manhã, quando cheguei, ela me fazia torradas e lhes deitava mel, e eu a observava de olheiras manchadas e cabelo um tanto descomposto que não a deixariam me mentir. Ficou acordada? Disse-me que ficara, e que vira larápios naquela esquina, e que fizeram bagunça, que quisera saber por onde andavam agora, que não os acusa de nada, pois nada carregavam. Que se sentira enfadada dessa vida sem nada.

 

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Retirante

Agosto 20, 2008

 

Eu desejo esses caminhos mais tranqüilos,

Acho que algumas das minhas apoteoses estão falidas.

Quero o leito seco dos rios por horas a fio

- uma sina além do retirante penitente –

Que me faltem risos no lugar do ciso que não tenho, e

Que ao menos meus olhos sejam mais sérios.

Desejo que me falte o excesso do desejo!

E meu indicador – eterno inquisidor tremente –

Aponte-me uma só direção, e que seja o contrário do outro: eu mesmo.

Se as ruas se dourarem claras e aturdidas

Pedirei escuras nuvens pesadas e o vazio que fica depois das despedidas.

Que venham as gotas de chuva –

E que nem essas sejam fartas, e que nem haja vento.

Que meus passos apressados se retesem lentos.

E desse alarido que me ofende os sentidos e a retina!

 

Disso tudo –

Quero que meu corpo faça silêncio.

 

 

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