Posts com Tag ‘por-do-sol’

h1

Desmaio do dia

Julho 2, 2008

 

As sombras postas na parede que sustenta minha teimosia escorrem nos meus largos pulmões – passadas respiradas de par em par – desmaiam no chão roto: estou à espera das novidades além-mar, mal criada sem negar o meu afogo, o meu atraso, o meu  engasgo. As tramas que teço nas cortinas desobedecem o nó dos dedos, respeitam apenas o vento que venta sussurros cínicos ao pé do meu ouvido… Zombam das flores que ainda ontem colhi para plantar no meio dos cabelos. Atiro-as longe, tão longe, que caem sem pétalas à face do barro socado: insulto-as num soluço abafado e desdenhoso. Engulo a seco o cardápio do ócio para afastar o tédio, copio as mãos grossas da noite que vão lentamente afundando o claro do céu na pira do horizonte. Ao menos tento ser competente na tarefa de manter as dores longe daqui: afundo o começo da noite dentro de mim, mantenho minhas costas coladas no batente da velha porta da casa, a velha porta que sustenta vergada o desmaio de cada dia (ele caindo doente ao meu lado): cai febril na minha cama amarrotada, nas bochechas afogueadas, cai febril e doente nas minhas costas suadas. Febre do dia. Doença que me contagia durante o sono pesado das sombras que se deitam em qualquer lugar da casa (e vivem elas a fingir presenças irreais) – eu volto a afastar o portador do mau agouro, da solidão. Afastar do fôlego que toma a noite, da tarde laranja, estou apenas tentando abrandar a minha febre de bem querer, mas o chão é retórica do mal que me quer e das flores que atirei ao longe ficam espinhos na planta dos pés.