Discursos inflamados têm um tempo exato para acabar.
Após ultapassarem seu tempo de tolerância correm sérios riscos, dos quais dois são os mais perigosos: o primeiro para o ouvinte, que pode não estar em uníssono com a voz do sujeito que professa: cair no tédio e no descrédito. Outro para quem exclama: saturar-se de sua própria voz, dar vazão a pequenos devaneios, perder-se entre realidade e convicção.
Discursos inflamados têm que usar de certos finais imprevisíveis que deixem nas bocas alheias expressões deslumbradas e nos pulmões continuidades pessoais que não possam ser reveladas – dúvidas suspensas aguardando qualquer reação que finalize o que agora, em cada cabeça, tem vozes próprias. Esses discursos inflamados tendem a criar um vínculo com o mundo, figuras antes amorfas e com as agonias mais humanas. São verdades alheias que tomamos por nossas, traduzidas e confessadas por línguas vizinhas, formas de rostos que assumem feições e posturas determinadas. São curativos de feridas e ao mesmo tempo sopro de reacender brasa.
Esses discursos iflamados têm tempo de acabar, antes que se tornem mentira até para quem os proclama. Discursos inflamados cansam, mas é preciso deles uma certa (e pequena) dose diária.
