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Aquela Casa

Agosto 3, 2008

 

“Fica, fica mais um pouco dentro de mim.” Sei que ela pediria para que ficasse mais uns instantes, e ficarias. Grudado mais alguns instantes nas paredes de dentro dela, de olhos cerrados.

  

 

 - É necessário dar vida às coisas, é necessário que as coisas respirem e que esse parnasianismo seja tão inútil quanto nossas paixões. Porém, tudo que é tolo e inútil, que seja elevado ao céu, e nossas paixões levadas às últimas conseqüências.

 

 

E ao entrar sem pedir licença, sempre sorrateiro durante a madrugada silenciosa, preferiria que manchasse teus pés descalços na terra vermelha daquele teu jardim abandonado que a chuva acabara de molhar e deixasse impressa a silhueta das tuas pegadas nas lajotas rachadas e envelhecidas daquela casa. Aquelas que tanto conhecem o arrastar e a curva dos teus pés.

Enquanto vão embora todos aqueles fantasmas e acomodam suas tralhas e velhos tesouros em baús à luz baça do meio dia, ela pediria à madrugada que te rasgasse as palmas das mãos com aquele enferrujado canivete suíço, esquecido dentro de um dos armários empoeirados que quase nunca foram abertos, o canivete esquecido. Te forçaria registrar à face de paredes e azulejos tuas digitais masculinas, todas aquelas tuas mulheres divinas, todos os teus segredos pueris, a tua infância tão preparada quanto poção mágica, junto dos livros encaixotados que restam à beira da porta, agora apenas de saída.

Sei que ela seria inteira meias luzes que tanto elevam teu pesado coração. Ouço da boca dela as meias palavras engasgadas que não foram ditas: (é necessário dar vida às coisas) “Escora nestas quinas minhas, pousa teu peito forrado de algodão à beira dos meus rodapés.“

E parece que as cortinas ainda dançam pra te acordar. Que às tardes solitárias que irão se passar algum piano tocará pra embalar lembranças e assustar intrusos que ali permanecerem. Talvez algum tipo de assombração das meias noites de lua cheia para crianças sapecas de alguma biblioteca escolar.

Naquela casa, que tanto queria que ficasses por mais um instante, aquela casa, naquela rua, junto daquela árvore, que guardava tantos pássaros e tantas estações, que assistias pela janela, que conseguia alcançar da tua escada, onde poderia agora estar sentado. Aquela casa. Sempre será tua. Ainda que torne-se terreno. E prédios. E tédios. Sempre tua.

 

 

Depois que acomodar-se em tua nova cama,

E ao guardar todas as tuas tralhas nessa nova toca…

Muito cuidado com as caixas de cartas que abres.

Têm certo poder revolucionário de causar sensações

Saudosas e doídas e sorrisos íntimos.

Têm certo poder revolucionário essas caixas.

Têm certo poder viciante.

E especialmente algumas certas cartas.

Muito cuidado com essas caixas.