Arquivo da categoria ‘Uncategorized’

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Ciranda Zonza

Outubro 26, 2009

Ciranda tonta e adulta essa.

Bate como bumbo de folclore no tempo. Bate no peito,

Com a mão fechada, sem vergonha da culpa!

Empertigada por ser, apesar de erro, chão batido, andado e caminho.

Tempo sem desperdício.

Ensaio de invenções que todos os dias são as mesmas,

Mas apenas nossas, descobertas.

Zonza e morna essa nossa solidão!

Brincadeira adolescente a nossa.

Inocente no acreditar em amanhãs

Maliciosa por driblar as noites e os medos.

Ciranda deliciosa essa.

Só  nossa, ela.

 

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Libélula

Outubro 21, 2009

A libélula que voa

Livre

Na fábula do trigo

Leve ao vento

Traz aos seus olhos

O brilho das asas

Rápidas.

Dos seus cílios compridos.

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Distraído

Setembro 29, 2009

 

O dia se levanta apressado…

Cadê o sapato,

Nem café?

Ele se levanta com torcicolo,

Andando torto,

Vai trabalhar?

Fecha a porta!

Esqueceu o guarda chuva,

Meu Deus! A blusa de frio…

E acordamos com o dia pra

Lembrá-lo do que ele se esqueceu…

E acabamos por, mais ou menos assim,

esquecermo-nos de nós mesmos…

 

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Oito minutos dentro de uma fotografia.

Junho 28, 2009

Quando eles falarem de mim, serei um rosto antigo num retrato amarelado. Não estarei em paredes como costumavam gostar de estar nossos bisavós, espreitando a sala. Estarei guardada em meio aos meus próprios pertences, quem sabe no sótão, quem sabe no porão, empilhada no meio de tantas tralhas e caixas. Se pudesse guardar um pouco de humanidade naquilo que em mim será um dia, quem sabe, somente alma, ainda velaria por minhas cartas, meus cadernos, meus brinquedos, meus vestidos. Poderia estar dentro de cada um que os lesse e visse e sentir o que cada um sentiria quando os descobrisse. Mais ainda aqueles que fossem sangue meu, de clã ou casta. Meus olhos, meus traços, meu sorriso. Estarei guardada, empoeirada, nunca estarei tão viva. Enquanto vou vivendo a parcela inteira da minha vida, e vou respirando todo o ar que posso respirar, sem duvidar que os dias hão de vir, guardando o brilho que posso guardar dos sóis que nascem e a paixão das luas que crescem e minguam. E quando descobrirem meu rosto, precisarão assoprar a poeira de alguns anos. E alisarão a face brilhante do retrato e dirão algo sobre mim. Perguntarão a quem já me conheceu, se houver alguém por perto. E eu estarei ao lado dele. Pra sentir o que ele sentiu ao me descobrir, retrato do tempo. Para sentir novamente o que fui. E remoçar o espírito do tempo.

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Julgamento

Junho 7, 2009

Essa ironia em seus ombros nus… era um prato cheio e fumegante ao amanhecer daqueles meus dias.

Suas sobrancelhas viviam de uma maneira especial a trair quaisquer das suas opiniões, por mais austeras que fossem, e sérias.

Ou era eu que julgava conhecê-lo por completo?

E existia um nó na trave da sua boca, que desatava quando a gargalhada em cachoeira descia pelo meu pescoço.

Ou era eu que o julgava satisfeito com o pouco que tínhamos?

Aquela ira, nascida em acessos apaixonados, mesmo que não se tratasse de mim (ou outras mulheres e pieguices que o valham), tranformavam-no em um estandarte de causas já perdidas, palavras e gentilezas tão masculinas.

Ou era eu que costumava julga-lo suficientemente íntegro?

Hoje, meus olhos, meu corpo: viciados. E julgar que ainda é o mesmo, seria errar sempre?

 

 ps.: escrito em 2008.

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Galo de Briga

Maio 29, 2009

 

Quero lhe alcançar! Quanto inferno é que vou ter que atravessar e trazer meus calcanhares em brasa ansiando lhe ultrapassar os passos largos? Os ossos em minhas mãos se contraem sem direção para sobrar, olhos agudos e mãos sempre trancadas – palminhas abertas são como as flores que ganham mocinhas. Não duvido que esses tantos sofrimentos rasos não farão jus ao meu tempo desperdiçado tentando lhe ultrapassar. Não regresso dessa viagem rumo ao nada. Não duvido que um dia eu consiga lhe desbancar de todos os seus falsos altares, irei alcançá-lo, atravessá-lo com minhas garras. São todas estas setas que trago às costas – proteção contra cupidos interesseiros – época já amarrotada aquela das garotas ingênuas que não sabiam onde é que se metiam, onde estavam se escondendo. Quero lhe alcançar, onde é que mais vou ter que ir, quanto mais vou ter que mergulhar nas esquinas da cidade? Nessa paisagem escura e cinza, quero chover-lhe um céu amarelo, quero ventar fria na sua nuca. Quero atravessar seus olhos e todos os seus pensamentos. Vou alcançá-lo. E isso, um dia, ainda me fará plena.

 

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pandora

Maio 14, 2009

Estamos enganados quando enxergamos caminhos
e achamos que nos guiam
e pensamos que somos plenos.

Estamos enganados porque amanhã a contramão é mão dupla
E amanhã o sorriso se afrouxa
E ali onde acordamos chove se ontem fazia sol.

Se somos guiados, enganados que somos,
o guia é o que não sabemos: positivo ou negativo
Explodem dentro dessa nossa caixa de pandora.
E é quase uma pequenina caixa de lembranças.

Amanhã há de ser.
Só não sabemos o que.
E é por isso que acordamos.
Vivemos pagando pra ver.

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Sem vergonha

Maio 11, 2009

Eu imploro

Ajoelhada aos pés das palavras que me caem

Que me venham desavergonhadas e muito bem encaixadas,

Meio que deslizadas e depois não me perguntem. Não digam nada!

Porque às vezes não quero mais dizer, e às vezes eu nem mesmo sei.

Dizer…

Eu imploro

Mas não espere que fique humilhada,

porque é delas que eu me desfaço quando não quero mais nada.

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Quando?

Abril 27, 2009

Socos sem direção no ar da graça… ando e nem vejo aonde vou

Pensando em todo mundo que já passou por mim

E vou ficando pra trás… quanto mais ando.

Ou será que quanto mais ando,

Mais os outros ficam pra trás?

Como é que tantos assim se perderam de mim?

Como foi que me perdi deles todos, meu Deus?

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Mal amor

Abril 19, 2009

Se eu atravesso a rua você pede pra abrir o sinal

Se eu tomo água você quer refrigerante

Se eu falo de poesia você fala em mecânica

Faz tempo que vou pulando amarelinha

E você dando uma de paternal

E se eu quero andar na madrugada você diz que já é tarde

Se eu fico de cara fechada você vira e dorme

Se eu durmo pela manhã você sai, você some.

Faz tempo que vou arranjando desculpinhas

E você fingindo que não faz mal.

Se leio você diz que estou longe

Se estou perto você se preocupa para que eu não grude

Se me afasto é porque não ligo

Faz tempo que não sei com quem eu lido

E você achando que está normal.

Assim vamos, mal, amor.

Muito mal.

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Deus e o Homem

Abril 11, 2009

Os pilares de sustentação do museu poderiam ruir assim que você assumiu seu posto de espião. Os vidros espelhados da biblioteca poderiam partir-se em tantas lascas afiadas assim que você notasse poder ver através deles sem pudores, sem ser retaliado. Qualquer ipê poderia ter migrado para dentro do seu quarto e enchido suas mãos de flores e lhe enraizado aos pés da sua cama (ainda assim não deixaria de ser sua boca fonte de seiva bruta).

Qualquer banca dominical de jornal poderia ter se fechado numa branca segunda feira, e você poderia ter passado por ela sem servir de brinquedo a qualquer felino desocupado. Qualquer estátua poderia ter vergado ao chão por não ter enfim encontrado em sua larga investida o objeto de tamanha procura. Qualquer ferida aberta ao meio fio da calçada poderia fazer de um mal dado passo um acaso propositado impedindo-lhe de encontrar qualquer boa alma que compactuasse com seus impulsos inconseqüentes. Ou com minhas idéias tortas. Canetas poderiam falhar e a única folha de papel que lhe houvesse à beira da mão poderia servir-se de ventos soprados pelo entardecer e escapar pela avenida, acabando pisoteada por qualquer manada humana que acaba de sair do trabalho.

Poderia não existir entusiasmo nesses comentários fotográficos que nós, os inconformados, sabemos muito bem tecer, e nunca haveríamos despertado o que jazia até então adormecido ao pé do ouvido. Não teríamos descoberto esses óbvios segredos que havíamos esquecido. Quem culpar pelas coincidências d“O estrangeiro” de Camus? Com quem ralhar e enfiar o dedo em riste no meio da fuça por fazer tanta sala ao bel prazer do acaso? (Deus! Linhas tão tortas! Ainda assim paralelas…) Que fazer senão empurrar barranco abaixo o menino que faz florir onde planta as mãos atrevidas? Onde guardar as partituras que tocamos ao piano, quando nos assusta o toque do telefone?

Que fazer se os cinco espinhos que levamos à ponta dos dedos são apenas doloridos e reponsáveis por essas febres e essas fúrias e esses olhos enfermos? Que fazer com essa doença que adquirimos e nos faz sempre recomeçar do zero? Com as flores daquele jardim, que despetalamos desesperados e aos prantos, desmentindo em vão que a última pétala em flor era de mal me quer, o que fazer? Se cata-ventos não existem mais ou existem a qualquer um e valsas são apenas para serem guardadas em suas vitrolas empoeiradas e cartas em pequeninas caixas de lembrança que se perdem sem querer no meio da mudança?

O que mais podemos fazer senão aceitar como um avozinho corcunda mal-acomodado no banco da praça vazia, aceitar a fatalidade e o pão de cada dia? Senão negar inutilmente a comodidade aos broncos, a cumplicidade que encontramos apenas em sonhos e silêncios que jamais existirão na turbulência das cidades grandes?

Deve de ter sido Deus por alguma escolha mal respondida que escreveu: fôssemos obra prima do acaso. E de propósito chega o diabo e nos oferece a obra última do desejo. Consumidos e alimentados que fomos pelas fúrias apaixonadas, consumamos, intensos, o que podíamos na pressa de saciar a sede que nunca cansaremos de saciar.   

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De|coração

Março 24, 2009

 

Os livros na estante

Encostados uns nos outros

E os sofás acolhendo corpos

Sempre de par em par

As caixas de som,

Travesseiro e cama

Insenso e fogo,

Fogo e cigarro, colar e pescoço…

Acho então que escolhi sem querer a solidão como um par

Me colocaram na estante, ao lado de uns livros, talvez interessantes, mas como saber?

Alguém me escolheu pra fazer par com a solidão

Assim como escolhem peças de decoração…

Que nem sempre combinam.

 

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Hospital

Fevereiro 17, 2009

         

É preciso, nos corredores lívidos, que as palavras sejam mansas e talvez cheias de cuidados quase inaudíveis. Funcionários e doutores conduzem atestados, notícias, macas assaltando corações aflitos por qualquer boa notícia – que parece nunca chegar. É preciso que os olhos vistam de cinza o passado. Que se obriguem de cantos vazios nos corredores mal iluminados de luz trêmula: a espera é longa é desavisada, as orações e as mãos, suspensas. Essa carne é falha, munida de relógios e bombas. Somos perecíveis, bens consumíveis – amanhã somos simplesmente mais nada: morremos. Vem o doutor a passos cautelosos – ele já se acostumou. Ele agita a língua pesada – em seguida uma onda de choro. É preciso que trajemos negro.

 

            Porque às vezes, nalgum dia desses, seremos nada e nada poderemos fazer.