Os pilares de sustentação do museu poderiam ruir assim que você assumiu seu posto de espião. Os vidros espelhados da biblioteca poderiam partir-se em tantas lascas afiadas assim que você notasse poder ver através deles sem pudores, sem ser retaliado. Qualquer ipê poderia ter migrado para dentro do seu quarto e enchido suas mãos de flores e lhe enraizado aos pés da sua cama (ainda assim não deixaria de ser sua boca fonte de seiva bruta).
Qualquer banca dominical de jornal poderia ter se fechado numa branca segunda feira, e você poderia ter passado por ela sem servir de brinquedo a qualquer felino desocupado. Qualquer estátua poderia ter vergado ao chão por não ter enfim encontrado em sua larga investida o objeto de tamanha procura. Qualquer ferida aberta ao meio fio da calçada poderia fazer de um mal dado passo um acaso propositado impedindo-lhe de encontrar qualquer boa alma que compactuasse com seus impulsos inconseqüentes. Ou com minhas idéias tortas. Canetas poderiam falhar e a única folha de papel que lhe houvesse à beira da mão poderia servir-se de ventos soprados pelo entardecer e escapar pela avenida, acabando pisoteada por qualquer manada humana que acaba de sair do trabalho.
Poderia não existir entusiasmo nesses comentários fotográficos que nós, os inconformados, sabemos muito bem tecer, e nunca haveríamos despertado o que jazia até então adormecido ao pé do ouvido. Não teríamos descoberto esses óbvios segredos que havíamos esquecido. Quem culpar pelas coincidências d“O estrangeiro” de Camus? Com quem ralhar e enfiar o dedo em riste no meio da fuça por fazer tanta sala ao bel prazer do acaso? (Deus! Linhas tão tortas! Ainda assim paralelas…) Que fazer senão empurrar barranco abaixo o menino que faz florir onde planta as mãos atrevidas? Onde guardar as partituras que tocamos ao piano, quando nos assusta o toque do telefone?
Que fazer se os cinco espinhos que levamos à ponta dos dedos são apenas doloridos e reponsáveis por essas febres e essas fúrias e esses olhos enfermos? Que fazer com essa doença que adquirimos e nos faz sempre recomeçar do zero? Com as flores daquele jardim, que despetalamos desesperados e aos prantos, desmentindo em vão que a última pétala em flor era de mal me quer, o que fazer? Se cata-ventos não existem mais ou existem a qualquer um e valsas são apenas para serem guardadas em suas vitrolas empoeiradas e cartas em pequeninas caixas de lembrança que se perdem sem querer no meio da mudança?
O que mais podemos fazer senão aceitar como um avozinho corcunda mal-acomodado no banco da praça vazia, aceitar a fatalidade e o pão de cada dia? Senão negar inutilmente a comodidade aos broncos, a cumplicidade que encontramos apenas em sonhos e silêncios que jamais existirão na turbulência das cidades grandes?
Deve de ter sido Deus por alguma escolha mal respondida que escreveu: fôssemos obra prima do acaso. E de propósito chega o diabo e nos oferece a obra última do desejo. Consumidos e alimentados que fomos pelas fúrias apaixonadas, consumamos, intensos, o que podíamos na pressa de saciar a sede que nunca cansaremos de saciar.