Arquivo da categoria ‘Prosa leiga’

h1

Sobre os Nascimentos

Junho 18, 2009

Disseram a ela o nome que ela tinha. Não, não é esse.
E disseram que a casa era dela. Não é aqui.
Perguntaram sobre sua idade. Ela precisou olhar no espelho, e o que viu lhe pareceu o rosto de uma estranha.

Chove? Ouvia o barulho. Sim, responderam.

Tendo acabado de acordar, não reconheceu os móveis do quarto. O colchão era duro. Ainda chovia. A ponta dos pés nus quase tem medo de tocar o chão gelado. Ninguém a impede. A olham, porém, boquiabertos, duvidosos, esperando dela o primeiro passo. Pares de mãos estendem-se em uma roda silenciosa e aflita, esperando que algo muito frágil pudesse cair. Ela apenas percebe os olhos e as bocas alheias, sente-se invasivamente observada e isso a incomoda. Quando, D’um impulso seus joelhos tremem, dobram-se, um rapaz a sustenta: ela não suporta seu próprio peso, apesar de magra. Porque me olham assim? Os olhos dele são negros. Ele pede, sussurrando, que não olhe, ela obedece. Pede que os outros – não olhem, não olhem. Eles disfarçam. Mas continuam olhando, como se ela fosse um pequenino aprendendo a andar, desprendendo-se vagarosamente das mãos do rapaz, que apertavam seus braços com firmeza. Primeiros passos dados, ainda caminha com incertezas.

A porta? Onde fica a porta? Todos se assustam e não dão a resposta. Burburinho. Porque a porta? Ele pergunta, olhando-a como se olha a um velho e querido conhecido. Esse lugar não é meu. Esse não é o meu nome, essa roupa não é minha. Vocês, quem são? A porta. Não, não tenho filho. Não sei, não sei meu nome, abra a porta.  Você, onde fica? Onde fica a porta? A voz tremulava. As gargantas prontas para dar a resposta não respondem. A camisola é leve, o vento que entra pela janela também. O cheiro é de chuva, mas ela não sabe.
Anda rapidamente e uma procissão a segue, dobrando os cômodos por onde passa e desvia. Alguns soluçam, outros se entreolham. O rapaz observa, sustentando uma postura que não admite joelhos dobrados.

Essa é a porta. Você mora no alto desse morro. Essa é sua casa, mãe. Ela não responde, hesitando. Ele abre a porta. O céu, branco, é como o que ela se lembra. A grama do jardim que beija a casa está viva, movimentando-se verde, crescendo quase a olhos vistos.
Os pingos de chuva são grossos e cotucam doído seus ombros frágeis. Ela olha para o rapaz, como quem pensa em fugir, mas também como quem pensa em acreditar na primeira coisa que ouvir. Não existe mais nada em que acreditar?
Ela hesita, com medo do ridículo.  Arrisca:
Se essa sou eu, como sou? Pergunta a ele, como que o chamando.

De dentro da porta, ele tira apenas os sapatos, com urgência. De meias, olhando aos que observam, levando aos olhos as mãos, pede que deixem, está tudo bem, tudo bem. Caminha até ela como o domador de um animal arisco, que dissimula algum medo. Se distrai percebendo a água no meio do tecido que envolve seus dedos. Ela está olhando para aqueles pés, e ele, mais alto, ele está olhando para os olhos fundos dela. E dirige o olhar para algo que não se vê, mas está pousado no horizonte verde, enevoado. Ela acompanha o passeio que dão seus olhos jovens. E a chuva que cai escorre por seus cabelos e sua testa, fria.

Que lugar é esse?

Te importa mesmo onde é aqui? Alguém te impediu de fazer qualquer coisa que queira? Não é preciso medo. Ele pergunta e ela ouve, mas não o responde nem o olha nos olhos. Dá as costas a ele. São plantações e árvores. Passos recomeçam descalços. No portão do jardim velho com roseiras velhas, uma rua, que termina numa estrada onde não se vê o fim. É um vale, ela diz. Sua roupa ensopada, grudada ao corpo cobre a pele que ela não sente ser dela mesma. Abre os braços, curvando-se ao peso da água que escorre por seu corpo. Quer respirar fundo, mas soluça. Seu colo se divide convulsivo. Fecha a mão ao redor do punho, apoiando a palma das mãos no ventre, como se pudesse segurar-se a alguém que não ela mesma.

Tem aqui o instante de vida que todos querem ter quando desistem de tudo. E não é uma resposta.
Recomeço.

E, muitos passos depois, ruazinha abaixo, duvidosa de si mesma, percebe-o alguns metros atrás, silencioso, cobrindo os braços, com frio.
Ainda está de meias.

Então aquela é minha casa? Sim, é aquela. Ela levanta o queixo. Não preciso ficar aqui, mas quero.
E és meu filho? É isso? Sim, sou.
Por favor, não quero que me chame mãe.

Não se abraçam, pois são estranhos e apenas os íntimos se abraçam. E, caminhando na chuva, ao lado dele, aposta o nada que tem nesse lugar que dizem ser dela. Se promete, em silêncio, que se não for justa e cuidadosa o suficiente como ao acordar nova todos os dias, não valeria a pena todo o verde, tudo o que ardeu e toda a chuva daquele dia.

Decide apostar em si mesma, naquela vida que não conhecia e recomeçava.
Mesmo não sabendo o que foi ou o que seria.

h1

Apesar de ontem, Amanhã…

Janeiro 8, 2009

          

               Daqui uns muitos pares de dias seus dentes estarão mais fracos e amarelados. Seus passos mais vagarosos, seus joelhos com medo que seus pés pisem em falso. Hoje as linhas do seu rosto são apenas contornos. Amanhã serão leitos de rio e solo seco: sim, eles podem viver juntos – o solo dos teus olhos e o entorno dos teus lábios, a marca dos teus sorrisos.

            Amanhã nossos ossos estarão mais quebradiços, assim como nossos corações empedrados de pome, de lixa. O peso dos anos se apoiará em nossas costas – como um velho amigo a nos dar tapinhas marotos nos ombros – e lá se vai a linha reta, jovem e imponente do orgulho.

            Amanhã teremos mais medos, sem saber também como é que podemos ao mesmo tempo sermos mais seguros. Seremos, talvez, mais sérios, e a cada dia que passa, vivemos menos. Um dia a menos. Seremos saudosistas natos, sonharemos menos para nós que para os outros. Sonharemos o brilho dos outros. Entenderemos e perdoaremos mais erros. Ou jamais os perdoaremos: vai da medida de punição que escolhemos para nossas próprias culpas – que muitas vezes os outros nem sabem, nem saberão que temos.

            E amanhã, apesar de hoje, veremos ou teremos filhos, netos, bisnetos, sobrinhos, e nos lembraremos de ontem. Faremos deles um espelho mágico do passado: quereremos corrigir neles nossos antigos e incorrigíveis erros. E eles a ignorá-los. Quereremos apontar-lhes os caminhos. E eles a desviá-los. Ao lembrarmos de tudo o que fizemos, por alguns momentos, haveremos de querer voltar.

            Apesar de ontem, amanhã ao ver os galhos de nossas árvores de frutos em pencas, haveremos de ser sempre nós mesmos.

h1

Carta a um Velho

Setembro 23, 2008

Senhor Tempo,

É tão velho quanto tartarugas enrugadas e escondidas em seus cascos. Mil coisas sempre a fazer, sendo o sempre uma dessas partículas finitas de você. É bom que saiba, sua questão de não esperar é o que mais desagrada, reclamação em coro! E venho lhe avisar. Tão rabugento que ao tentarmos abraçar é feito papai de barba por fazer. E se é que ainda existem pitos, você, de marcha acelerada, mas nunca a correr, resmunga em pitos e dedo em riste aos lerdos que desacompanham teus compassos e estalos.

Tua casaca grossa não esconde! Corcunda de nariz empinado, resmunga sem tornar teus olhos cegos para sequer tentar nos ver. Ledo erro: faz que nas pegadas de teus passos pesados ou mesmo leves, nos nossos calendários é que está seu legado. Nos relógios de sombra, nas palmas da mão levadas ao sol acima do horizonte. Nas folhas de diários, em tudo o que cresce e ainda resiste a você, em tudo o que permanece. Petulante, o chamarei infeliz e inconformado, consciente de conter em si frascos de seu próprio veneno, de não poder corrigir tudo o que abarca na condição de ser seu próprio inimigo.

Velho vincado por si mesmo, de dobras e entranhas secas. Tempo, velho de cachimbo e cadeira de madeira rachada, velho de esquinas, sinuca e cachaça, lhe tenho broncas, mas também penares. Lhe escrevo curiosa e sincera: embasbacada entre a flanerìe e o que mais lhe dizer. Que mais dizer? Mordo a língua, talvez também cuspa para cima: lhe admiro! Sirvo-me de você como quem se acostuma com algumas cicatrizes: na época horríveis, agora contos que fazem rir, desenhos que há tempos rabisquei e nunca mais mexi, fotografias e livros que estão guardados em caixas, e vão sempre a ressuscitar. Aí é que você está, em silêncio e cabisbaixo, andando um pouco mais devagar. Um dia, ainda! Lhe passo uma xícara quente de café! Mas está sempre afazeres, não é mesmo?

Sei, mas não entendo! Nem eu nem eles. Que de certa maneira é humano e já não questiono ser divino, posto que já é um deus: razão de reter em si a certeza que ninguém tem: amanhãs! E por saber o que mais ninguém vê, despoja, com segredos que são só de você, a grandeza humana. Velho de sarjetas, é o que é! Não que razão lhe pertença, mas ponho este discurso em febre: tanto faz e tanto oscila, que um dia finalmente consegue acordar remorsos, lembranças, saudades e tristezas. Consegue de alguma forma inexplicável provocar perdões e destruir realezas. De riquezas, Tempo, sei que é desprovido. Seus pés são nus, cheios fissuras e veias.

Não vou escapar, por fim, de lhe lembrar da humildade, que lhe foge aos gestos, mas existe tão forte como os seus braços de segundos que me embalam. Em você tudo perece, em você tudo nasce e envelhece. Faço cartas como quem nada quer dizer, mas tenho aqui uma pergunta, e para ela, me ponho ao mesmo pé que você. Qual sua serventia senão renovar o que já venceu? Senão odiar tudo quanto é tão empoeirado quanto você? Sei que tuas sobrancelhas arqueadas e teu cenho franzido são carimbos do teu jugo: todo o bem e todo o mal que faz, por castigo de Deus, não desviam de você. Está enrugado, Tempo, Tempo, mano velho, e o peso dos dias que passam se acumulam nos seus ombros.

E diz então, rabugento, o que mais podemos fazer senão aceitar como um avozinho corcunda mal-acomodado no banco da praça vazia, aceitar a fatalidade e o pão de cada dia?

 

h1

Nômade cidade

Setembro 12, 2008

          

  Irei desperdiçar discursos contaminados de dados viciados com você. Mas serão dos últimos. Sinto meus sorrisos educados chegando a um final angelical e temo que para você acabem em uma curva suave e não acentuada como as asas das aves de rapina, de envergaduras e levezas capazes de alcançar as alturas. Eis aqui, no eixo que divide o meu corpo lácteo, o ponto que me define. Exatamente na altura dos meus braços latitudinais: deixo que te partam em dois ao nomear-te de envio ao desconhecido, traçando duas linhas que se cruzam em tua fronte, faço o mesmo contigo. Eu me reparto, vivo eterna em pedaços que vou pousando ao longo do rio denso que desço. Enterro aqui as folhas caducas que já me serviram de abrigo na margem das tuas pernas, nas ondas internas dos teus joelhos por onde me segurei não deixando que me arrastassem as correntezas. Sei que escondo muito bem escondida a falta de modos ao saciar minha sede e minha fome à sua mesa. E agradecida parto, levando da cabana que tivemos o que me basta para sobreviver.

 

h1

Sobre Gatunos e Meninas

Agosto 26, 2008

 

Alguns larápios cruzaram a esquina na noite passada, muito, muito perto do pequeno esconderijo de Amata. A insônia a cortejara, a janela a distraíra daquele chiado entranhado da tela da TV – o apartamento sempre penumbrado quase rarefeito de um ar parado e frio que congelava as narinas – então vira os larápios que atravessavam a rua naquela esquina. Bem ali, vê? Certamente satisfeitos de suas arruaças, riam chutando pedras e gatos que cruzavam seus caminhos. Ela estava descalça.

As vielas da vizinhança guardam segredos desses degredos animais, desses arroubos noturnos. A janela é tão alta, mas tão próxima da rua… E nos telhados das casinhas, além dos pios das corujinhas, um luar vagabundo. Naquela noite de ontem esta sala estava vazia, e ela não mentiu, sabemos que há tempos não conseguia dormir. Lhe vieram à vista esses gatunos pra aliviar a tez, quase descera as escadas, ‘descalça mesmo, viu?’, mo disse, para segui-los e ver onde dava o caminho dos desatinos.

Que tanto senso comum, que tanta vida tragada pelas madrugadas por horas a fio – fio que não se tece. Que tantos argumentos treinados à frente dos espelhos pra convencer-nos! A insônia da noite de ontem – e anteontem, e antes, e antes mais – a insônia dela calou, e ainda cala todos esses argumentos. E agora fico a procurar com a retina posta nas dobras que fizemos nas esquinas e auscultar as plaquinhas com os nomes das ruas, tentando descobrir onde será que Amata está.

Ainda hoje de manhã, quando cheguei, ela me fazia torradas e lhes deitava mel, e eu a observava de olheiras manchadas e cabelo um tanto descomposto que não a deixariam me mentir. Ficou acordada? Disse-me que ficara, e que vira larápios naquela esquina, e que fizeram bagunça, que quisera saber por onde andavam agora, que não os acusa de nada, pois nada carregavam. Que se sentira enfadada dessa vida sem nada.

 

h1

Desfaçatez

Julho 10, 2008

 

Ela disfarça olhando para baixo, e ainda consegue sustentar com o pescoço e a nuca o nó atado que quase se desenoza na garganta.

Enquanto ele fala, ela trata de olhá-lo nos olhos que ainda insistem em olhá-la de cima, coisa tão masculina e viril, talvez já não lhe sirva mais.

Ela disfarça, olhando para os lados, tudo o que não ouve, encontrando nas estátuas que de repente se movem – lacônicas – levando taças e mãos à boca e cardápios à mesa e talheres aos pratos, uma discreta distração – que ele não perceba.

E enquanto ele expõe seus motivos vazios, vazios de qualquer verdade e sentido, nas cordas vocais que insistem em timbrar fundo nos seus ouvidos – enfadados por saber da obrigação de escutar sempre as últimas sempre apenas palavras – talvez não o queira mais.

 

 

h1

Os melhores defeitos

Julho 7, 2008

 

No edifício do isolamento, no quarto ao lado, o baque estéreo. Escoltamos então copos de vidro às paredes rasas numa tentativa surda de mastigar segredos, e ficamos silenciosos e imóveis. Ratazanas consumindo a sujeira alheia, rondando o alimento primitivo, ignorando o fato de serem berros ou gemidos. E se berros, brindamos com bebida amarga e vermelha. E se gemidos, brindamos com conhaque e sevícia simulada. Queremos segredos! Queremos justificativas para a eterna caçada do nosso alimento. Justificativas cruas para defeitos instintivos. Não é preciso que sejam razões, mesmo porque não há humano de sanidade suficiente que esteja disposto a ouví-las. Mesmo porque não há sanidade entre nós, os ratos. E vamos passando de cá a lá vestindo sapatos com saltos barulhentos, chuviscando nos céus vizinhos pecados dantescos, arranjando parceiros invisíveis para compartilhar dentro de copos de vidro nossos melhores defeitos.

 

h1

Desmaio do dia

Julho 2, 2008

 

As sombras postas na parede que sustenta minha teimosia escorrem nos meus largos pulmões – passadas respiradas de par em par – desmaiam no chão roto: estou à espera das novidades além-mar, mal criada sem negar o meu afogo, o meu atraso, o meu  engasgo. As tramas que teço nas cortinas desobedecem o nó dos dedos, respeitam apenas o vento que venta sussurros cínicos ao pé do meu ouvido… Zombam das flores que ainda ontem colhi para plantar no meio dos cabelos. Atiro-as longe, tão longe, que caem sem pétalas à face do barro socado: insulto-as num soluço abafado e desdenhoso. Engulo a seco o cardápio do ócio para afastar o tédio, copio as mãos grossas da noite que vão lentamente afundando o claro do céu na pira do horizonte. Ao menos tento ser competente na tarefa de manter as dores longe daqui: afundo o começo da noite dentro de mim, mantenho minhas costas coladas no batente da velha porta da casa, a velha porta que sustenta vergada o desmaio de cada dia (ele caindo doente ao meu lado): cai febril na minha cama amarrotada, nas bochechas afogueadas, cai febril e doente nas minhas costas suadas. Febre do dia. Doença que me contagia durante o sono pesado das sombras que se deitam em qualquer lugar da casa (e vivem elas a fingir presenças irreais) – eu volto a afastar o portador do mau agouro, da solidão. Afastar do fôlego que toma a noite, da tarde laranja, estou apenas tentando abrandar a minha febre de bem querer, mas o chão é retórica do mal que me quer e das flores que atirei ao longe ficam espinhos na planta dos pés.

 

h1

Café

Maio 22, 2008

 Enquanto assisto ela fazer o café, fico em pé ao lado do fogão. Enrolo-me na coberta que resgatei da cama virada. Deixo que ela me faça esse agrado enquanto disfarça a preocupação: há pequenas gotas salgadas molhando o tapete em que pisamos, descalças. “Filha, isso tem que passar…” Abre o pacote laminado de café. (Nem mais esse cheiro me conforta. Tudo é signo. Ora o silêncio ora a lembrança fazem por horas comigo um par vasto dolorido.) A água começa a ferver, encolho os dedos dos pés: faz frio, e a água a ferver. (As opções, as escolhas dos caminhos. Tudo depende de nós.) Ela dobra as beiradas do filtro, apoiando depois as mãos sobre a pia escura… Algumas linhas e outras rugas. Me observa tentando extrair do meu peito algum espinho que não se vê. (Até essa parcela de metade da reação dos outros… É preciso lapidar diamantes, acarretar doçura nas palavras, por mais pesadas, é preciso escolhê-las… E como as situações apresentam-se cheias de recados, como bolhas de ar na água que ferve: procuram a superfície para se libertar.) E então ela desliga o fogo.

 Depois: “O café está pronto” a esfumaçar, mãe. Ficou o cheiro, sem o gosto.

Do livro de mágicas: já que seus pés estão descalços no chão frio, esquente suas mãos sobre o vapor da panela de água fervente. Aproveite para olhar as bolhas pequeninas que estouram na superfície.

 
h1

Deuses Vermelhos

Abril 18, 2008

 

Aquelas mãos trêmulas seguravam algum tipo de corrente que talvez o prendesse à vida, aquela que ele tinha, não a vida comum aos outros: apenas o fato de existir e ocupar um lugar no espaço (apenas no espaço, não no tempo – talvez para ele mesmo o tempo fosse uma questão de sorte, ou talvez mesmo de azar) já o fazia pertencer à algum tipo de vida – expiração e inspiração transpareciam compassadas e doídas. Aquela corrente o laçava pelo pescoço como uma absurda coleira frágil atando-o à alguma coisa terrena, humana ou animal. Aquele talismã o prendia à terra e ele o segurava com a mão suja e hesitante, em forma de súplica,

 

Read the rest of this entry ?