Arquivo da categoria ‘Pensamento Barato’
Maio 23, 2009
Tomo um copo de distância
E engulo com paciência
Para ganhar espaço e velocidade
- força motriz!
E atravessar de cabo a rabo essa cidade
E voltar de rabo a cabo
Sem querer te encontrar em lugar nenhum, nenhum lugar.
Vou tomando meu copo de distância.
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Janeiro 11, 2009
Estarei sempre calçada, ainda que deitada,
Pronta
À espera das ordens do tempo. – uma palma e corro.
Estarei sempre calada, ainda que língua
Atenta
À espera dos argumentos do tempo. – um ai e respondo.
Estarei sempre acordada, ainda que
Sonâmbula, mas
À espera do passar do tempo. Atenta.
Desalgema! Já não posso mais ser escrava.
Teu ponteiro.
Engrenagem, parafuso.
E ainda assim,
Aindassim
nada.
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Dezembro 11, 2008
Caro,
Mil perdões por este atraso, é despropositado meio que com propósito. Estive à procura de vícios e manias, fascínios que falassem por mim. Encontro-os aos montes, mas vestem apenas os outros, nunca cabem nos meus quadris, nunca servem ao meu corpo, meus trejeitos, meu riso. Acabo por achar certo vazio em cada história que podia, por acaso, ter sido minha – as completo em segredo. Se quer saber como ando, vou nesse desassossego constante de prece, mas não clamo. Enervada de não poder saber tudo - o mundo me escapa, o tempo e o espaço são regra de jogo mudo - vou escavando tudo o que vejo, inquirindo às pessoas de rosto de multidão, vou de olhos grandes, cenho franzido: pergunto ao maquinário, ao estradio, a tudo que não fiz. Me esqueço de ser humana ou povo. Só não me esqueço quando o estômago ralha, entre tantas outras que vêm do corpo, encontro denovo falha e me incomodo. Acontece, meu caro, que agora me alimento de histórias. Depois dessa busca, a primeira dentre tantas outras que farei, encontro minha mania, essa sim, é minha – eu leio. E poderia adotar feições estranhas, analisar o cercado do mundo de outras formas, de acordo com o que leio. E isso quanto mais eu faço, quanto mais me afundo, nunca sei se mais eu me perco ou mais me acho – essa é minha mania, meu caro – eu não sei nunca. E não me culpo.
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Novembro 10, 2008
Me inunda
Pelo cansaço ou pelo descanso…
Mas inunda:
Quero viver plena!
Repleta
Do que falta, que resta e
Ao que me agarro
Me resgata, me refaço…
Me esvazia
Pelo choro ou pelo riso,
Mas esvazia,
De toda agonia
Alojada nesse peito
Nessas palmas, nesses ombros.
E erra tudo o que é certo!
Quero é alforria
De todo esse reino tirano
De promessas à prazo
E defeitos disfarçados.
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Outubro 28, 2008
Ás vezes o poço é fundo
e às vezes o balde que vem é seco.
Sei que meus rios não são perenes,
os leitos não são rasos,
mas às vezes o balde que vem é seco.
Vem de pó, de chão e te terra socada de calcanhar.
Vem de suor e lata d’agua na cabeça – lata cheia de sol.
O poço é fundo, o caminho nem de mormaço é, e às vezes voltamos com o balde
vazio. Seco.
(sem inspiração ultimamente. uhnf. espero que acabe.)
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Outubro 23, 2008
- Ele tem razão, Tomé. Tanto ele tem razão que me dói sempre que lembro, Tomé. Toma isso, faz bem. É boldo. As folhas da árvore são grandes, cheias de penugens, quase cinzas… Mas que te deu no miolo tomar tanto, Tomé? Olha o que você fez de errado agora…
Lembro como ele cabeceava sem conseguir me responder, mareado de ressaca. São os devaneios hepáticos que vêm depois dos etílicos, e nos fazem ainda pensar.
- Quando brindamos, numa pajelança sem propósito, nos esquecemos ou nos usamos da falta de lembrança e surgem as dúvidas depois que acordamos: somos aquilo que fomos quando bebemos ou somos isso que somos quando nos controlamos?
Que somos afinal, Tomé?
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Outubro 11, 2008
Discursos inflamados têm um tempo exato para acabar.
Após ultapassarem seu tempo de tolerância correm sérios riscos, dos quais dois são os mais perigosos: o primeiro para o ouvinte, que pode não estar em uníssono com a voz do sujeito que professa: cair no tédio e no descrédito. Outro para quem exclama: saturar-se de sua própria voz, dar vazão a pequenos devaneios, perder-se entre realidade e convicção.
Discursos inflamados têm que usar de certos finais imprevisíveis que deixem nas bocas alheias expressões deslumbradas e nos pulmões continuidades pessoais que não possam ser reveladas – dúvidas suspensas aguardando qualquer reação que finalize o que agora, em cada cabeça, tem vozes próprias. Esses discursos inflamados tendem a criar um vínculo com o mundo, figuras antes amorfas e com as agonias mais humanas. São verdades alheias que tomamos por nossas, traduzidas e confessadas por línguas vizinhas, formas de rostos que assumem feições e posturas determinadas. São curativos de feridas e ao mesmo tempo sopro de reacender brasa.
Esses discursos iflamados têm tempo de acabar, antes que se tornem mentira até para quem os proclama. Discursos inflamados cansam, mas é preciso deles uma certa (e pequena) dose diária.
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Setembro 12, 2008
Irei desperdiçar discursos contaminados de dados viciados com você. Mas serão dos últimos. Sinto meus sorrisos educados chegando a um final angelical e temo que para você acabem em uma curva suave e não acentuada como as asas das aves de rapina, de envergaduras e levezas capazes de alcançar as alturas. Eis aqui, no eixo que divide o meu corpo lácteo, o ponto que me define. Exatamente na altura dos meus braços latitudinais: deixo que te partam em dois ao nomear-te de envio ao desconhecido, traçando duas linhas que se cruzam em tua fronte, faço o mesmo contigo. Eu me reparto, vivo eterna em pedaços que vou pousando ao longo do rio denso que desço. Enterro aqui as folhas caducas que já me serviram de abrigo na margem das tuas pernas, nas ondas internas dos teus joelhos por onde me segurei não deixando que me arrastassem as correntezas. Sei que escondo muito bem escondida a falta de modos ao saciar minha sede e minha fome à sua mesa. E agradecida parto, levando da cabana que tivemos o que me basta para sobreviver.
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Agosto 30, 2008
Devíamos queimar todos os malditos papéis do fórum dessa cidade. Devíamos queimar todos os fóruns das cidades desse país. Devíamos queimar tudo que nos impede de fazer justamente tudo o que sempre quisemos fazer legalmente, e nunca nos deixaram. O que sempre procuramos e não nos é permitido fazer, quem é fora da lei nunca tentou fazer. Quem é fora da lei nunca assinou papéis.
Nós, mocinhos, devíamos queimar todas as notas de dinheiro desse mundo, acabar com todos os cartéis, devíamos explodir toda a insensibilidade autoritária desse mundo. Devíamos abolir a burocracia da democracia. Devíamos abolir a burocracia, que é uma ferida vermelha aberta no meio do peito do mundo.
A força burra do mundo, devíamos queimá-la!
A força totalmente bruta, burra, cega e insensível, devíamos queimar. Tudo o que nos impede de continuar justamente o caminho que nos dizem que não podemos continuar.
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Julho 17, 2008
- Ah, sim! Antes que eu me esqueça! Ainda tenho algo… Provavelmente vou querer lhe falar, mas minha boca não vai se abrir… Por esse motivo, não fecha a porta! Eu… sempre tenho algo por dizer (talvez nunca chegue a lembrar).
- Ah, sim, antes que eu me lembre! Deixe-me pensar. Deixe-me olhar para esse lugar antes que me esqueça de lembrar dessas histórias que nos assaltarão a memória daqui uns anos ou mais.
- Antes que eu me esqueça! Sim, antes de tudo, deixe-me lhe lembrar: o mundo é uma roda viva, roda gigante… O resto você provavelmente se lembra.
Antes que me esqueça!
- Vá embora,
antes que eu me esqueça!
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Julho 7, 2008
No edifício do isolamento, no quarto ao lado, o baque estéreo. Escoltamos então copos de vidro às paredes rasas numa tentativa surda de mastigar segredos, e ficamos silenciosos e imóveis. Ratazanas consumindo a sujeira alheia, rondando o alimento primitivo, ignorando o fato de serem berros ou gemidos. E se berros, brindamos com bebida amarga e vermelha. E se gemidos, brindamos com conhaque e sevícia simulada. Queremos segredos! Queremos justificativas para a eterna caçada do nosso alimento. Justificativas cruas para defeitos instintivos. Não é preciso que sejam razões, mesmo porque não há humano de sanidade suficiente que esteja disposto a ouví-las. Mesmo porque não há sanidade entre nós, os ratos. E vamos passando de cá a lá vestindo sapatos com saltos barulhentos, chuviscando nos céus vizinhos pecados dantescos, arranjando parceiros invisíveis para compartilhar dentro de copos de vidro nossos melhores defeitos.
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Junho 19, 2008
A vida que escorre pelos meus dedos pálidos, eu deixo de lado. Alimento meus bens e meus pensamentos na ânsia de ter e ser. Enquanto vamos nos entendendo e desentendendo atando numa querência a independência de ser (ter é muito mais complicado), a liberdade para poder voltar, a vida vai passando (essa que eu deixo de lado), nos levando toda prosa, sem ligar pro nosso bem estar. Ela vai levando numa enxurrada irresponsável tudo o que tem direito. E vou me fiando de qualquer amor. Pagando a prestações contas que não preciso pagar. Prestando e pagando contas que não quero prestar. Não quero prestar.
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Junho 10, 2008
Às vezes é vazio que eu sinto…
Prá onde vai me levar essa estrada de silêncios?
Não saber me dá arrepios…
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