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Quasímodo da Avenida Paulista

março 28, 2011

No ônibus novamente. O destino não interessa. Os solavancos, sim. Num desses solavancos torço minha mão tentando encaixar a bolsa estropiada entre as canelas, para aliviar o peso na coluna. Talvez todos tenham torcido as mãos com a freada. Sobem um senhor e um menino, juntos, conversando, e o garoto senta no colo do senhor, que pergunta a respeito da escola, que pede para falar sobre micróbios, bactérias, germes! Um, grisalho, cabelo penteado, em mangas de camisa. O outro, ruivo de sardas, cabelos necessitando um novo corte, despenteado. O garoto o chama de papai. O ponto é perto da paulista. Observo o fundo do ônibus para verificar os lugares e quem sabe atravessar a catraca, não sem antes ouvir uma voz arrastada, forte, mas pronunciada com considerável dificuldade: “O b r i g a d o! B  o  m   s  er  v i ç o…” O dono da voz é um homen corcunda, mas mesmo assim, muito alto e corpulento. Camiseta amarela e calças brancas.  Camiseta puída e as calças dobradas. Calças encardidas, mas nem tanto pra achá-lo abandonado de qualquer higiene. Não consegui entender se a barra estava dobrada porque as pernas das calças eram longas ou curtas demais. Estava sem meias, e um pedaço da pele de seus tornozelos  e dos calcanhares eapareciam enfiados num sapato marrom de couro judiado e sola gasta. O sapato era velho, cheio de vincos e rachaduras. O cinto que segurava suas calças era longo demais, de couro, já mole pelo uso, com um belo pedaço sem apoio, sem classe e com toda a simplicidade e falta de vaidade. Um dos pulsos abraçado por um relógio preto, que pensei nem funcionar. Ele era alto e macilento, mas não gordo. A pele perecia mole.  Era grisalho e o cabelo estava até que bem cortado. Pode ter sido um homem imponente e forte. Ou apenas um homem forte cujo peso do tempo curvou. Outra coisa que o tempo deve ter curvado: sua língua, pois se enrolava com dificuldade e força na intenção de pronunciar as letras grudadas umas nas outras. A julgar por sua roupa e a pasta de trabalho murcha de coisas, que levava a mesma mão do relógio, o couro da mesma ordem do sapato e do cinto… A julgar pelo modo como levemente mancava e mantinha a corcunda na camiseta amarela puída, o tempo também pode ter impiedosamente curvado a linha  de sua razão. Mas o segui com os olhos enquanto atravessava a rua no farol correto e devo confessar que fiquei positivamente chocada com sua educação. Há pessoas no completo domínio da razão que sequer agradecem a Deus a comida que levam à boca e o dia que se levanta, quanto mais se dirigir ao motorista de um ônibus para lhe agradecer a corrida cheia de solavancos. O que tem aquele homem? Gostaria de ter abandonado o meu caminho, configurado de obrigações diárias, e segui-lo, assim como a outras figuras que atravessam meus trajetos e me injetam perguntas simples nas veias, que gostaria de descobrir por um simples motivo: vale a pena a compaixão que sinto por essas pessoas? Por esse homem? Vale a pena a intenção genuína que tenho de ajudar sem cobrar e sem hesitar?

Será que ele tem família? Onde  levou aquela pasta? O que havia lá dentro? Será que é má pessoa? Será que é muito boa pessoa?

E assim segue a vida, impessoal, sem riscos e sem graças na cidade grande. Neste dia, mais sem riscos que sem graças.

Nunca se sabe…

Um comentário

  1. Quem sabe as historias por detrás das historias?
    Quem pode responder suas perguntas, é você mesma.
    Sempre há compaixão, e sempre deve haver.
    (sentimento tão belo)
    Sempre deve haver a vontade de fazer o bem, sem nenhum interesse.
    Então: Que viva o Quasímodo da avenida Paulista !

    passa lá: http://www.blackpearlblack.blogspot.com/



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