São Paulo, 22 de janeiro de 2010
Houve um tempo em que os galhos das árvores, no quintal, pendiam em frutos ao alcance de nossas mãos e eram vermelhos. O chão era fértil – encharcado de sumo e forrado de folhas e sementes.
Esse era o tempo em que os pequeninos pássaros piavam em seus ninhos escondidos, à espera do alimento, que sempre vinha no bico das andorinhas, assim como as notícias boas de fim de guerra (naquela época as guerras acabavam). Assim o dia começava a anunciar o seu fim no horizonte. Naqueles dias enxergávamos o horizonte e os montes douravam à luz profunda da tarde, quando o sol alaranjado enviesava seus raios no pote das montanhas. Tudo era leve naqueles dias em que não vivemos.
Eram os dias em que calçávamos sapatos envernizados, sandálias com solas desgastadas de couro – e íamos à missa do domingo. Das andanças pelas estradinhas, nossos pés sempre voltavam empoeirados, vincando o couro dos sapatos.
Era um tempo em que as águas corriam livres o seu curso, e os moleques bebiam da bica, logo ali ó. As águas seguiam livres o seu curso e também o faziam os homens, vivendo em paz com o que oferecia a natureza.
Naqueles dias usava-se chapéus e o fumo era de corda. A cadeira era de palha, na varanda, posta à soleira da porta. As mulheres usavam saias e rendas, babados, anáguas e aventais. Perfumavam-se com água de alfazema e penteavam-se em frente à penteadeira, com seus pentes de madeira.
Houve um tempo em que as ruas eram de pedra e terra, quando também as praças eram extensão do jardim de nossa casa, colorido de margaridas, amores-perfeitos, roseirais, marias-sem-vergonha e samambaias de renda portuguesa. Nos coretos brincavam as crianças, de meia no meio das canelas, e nos banquinhos em frente à igreja ficavam as moças de sorrisos tímidos.
Andávamos ao amanhecer fresco, a caminho do armazém, onde comprávamos feijão e arroz, açúcar, fubá e farinha a granel. Sabíamos então que havia pães esquentando no forno recém aceso e fervia o leite na panela de borda amassada. Sabíamos quando passávamos em frente as casinhas que o café escorria no coador de pano. Pela tarde o bolo era de milho e de fubá. Havia geléia e compota pra levar pra vovó ou pra titia. Era bom aquele tempo em que não vivemos.
O jantar era calmo, e logo iam dormir as crianças, catando aqui e acolá pedrinhas de jogar e peões, bolas de gude e bonecas de pano, caminhõezinhos feitos de madeira pelos próprios pais, daqueles que ganhávamos no natal, quando os tempos eram difíceis. No quarto dos pais a colcha era de renda branca, de crochê que a mamãe fazia, e o colete do papai era de tricô de lã de caxemira.
No canto da copa a cristaleira modesta com taças de cristal e xícaras de louça branca. O garrafão de vinho ficava embaixo da talha de barro, no canto da pia que lavávamos com pó de café. O moço pedia sangria com açúcar, e a avó fazia, enquanto o pai bebia o vinho na caneca esmaltada. A mesa era de aumentar e as cadeiras eram muitas porque nossas famílias eram grandes.
Eram bons aqueles tempos em que não vivemos, querido, mal sabíamos.
A simplicidade sempre tem perfume de flor, delicadeza de pétala. As pessoas queridas que se vão deixam histórias doloridas pois dão saudades. E temos saudade, meu querido, daquele tempo em que não vivemos porque sabemos que eles eram mais felizes. Resta-nos tomá-los de exemplo. Será que ainda dá tempo?
Com amor,
Natália Ciotto
