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Oito minutos dentro de uma fotografia.

Junho 28, 2009

 

Quando eles falarem de mim, serei um rosto antigo num retrato amarelado. Não estarei em paredes como costumavam gostar de estar nossos bisavós, espreitando a sala. Estarei guardada em meio aos meus próprios pertences, quem sabe no sótão, quem sabe no porão, empilhada no meio de tantas tralhas e caixas. Se pudesse guardar um pouco de humanidade naquilo que em mim será um dia, quem sabe, somente alma, ainda velaria por minhas cartas, meus cadernos, meus brinquedos, meus vestidos. Poderia estar dentro de cada um que os lesse e visse e sentir o que cada um sentiria quando os descobrisse. Mais ainda aqueles que fossem sangue meu, de clã ou casta. Meus olhos, meus traços, meu sorriso. Estarei guardada, empoeirada, nunca estarei tão viva. Enquanto vou vivendo a parcela inteira da minha vida, e vou respirando todo o ar que posso respirar, sem duvidar que os dias que hão de vir, guardando o brilho que posso guardar dos sóis que nascem E a paixão das luas que crescem e minguam. E quando descobrirem meu rosto, precisarão assoprar a poeira de alguns anos. E alisarão a face brilhante do retrato e dirão algo sobre mim. Perguntarão a quem já me conheceu, se houver alguém por perto. E eu estarei ao lado dele. Pra sentir o que ele sentiu ao me descobrir, retrato do tempo. Para sentir novamente o que fui. E remoçar o espírito do tempo.

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Sobre os Nascimentos

Junho 18, 2009

Disseram a ela o nome que ela tinha. Não, não é esse.
E disseram que a casa era dela. Não é aqui.
Perguntaram sobre sua idade. Ela precisou olhar no espelho, e o que viu lhe pareceu o rosto de uma estranha.

Chove? Ouvia o barulho. Sim, responderam.

Tendo acabado de acordar, não reconheceu os móveis do quarto. O colchão era duro. Ainda chovia. A ponta dos pés nus quase tem medo de tocar o chão gelado. Ninguém a impede. A olham, porém, boquiabertos, duvidosos, esperando dela o primeiro passo. Pares de mãos estendem-se em uma roda silenciosa e aflita, esperando que algo muito frágil pudesse cair. Ela apenas percebe os olhos e as bocas alheias, sente-se invasivamente observada e isso a incomoda. Quando, D’um impulso seus joelhos tremem, dobram-se, um rapaz a sustenta: ela não suporta seu próprio peso, apesar de magra. Porque me olham assim? Os olhos dele são negros. Ele pede, sussurrando, que não olhe, ela obedece. Pede que os outros – não olhem, não olhem. Eles disfarçam. Mas continuam olhando, como se ela fosse um pequenino aprendendo a andar, desprendendo-se vagarosamente das mãos do rapaz, que apertavam seus braços com firmeza. Primeiros passos dados, ainda caminha com incertezas.

A porta? Onde fica a porta? Todos se assustam e não dão a resposta. Burburinho. Porque a porta? Ele pergunta, olhando-a como se olha a um velho e querido conhecido. Esse lugar não é meu. Esse não é o meu nome, essa roupa não é minha. Vocês, quem são? A porta. Não, não tenho filho. Não sei, não sei meu nome, abra a porta.  Você, onde fica? Onde fica a porta? A voz tremulava. As gargantas prontas para dar a resposta não respondem. A camisola é leve, o vento que entra pela janela também. O cheiro é de chuva, mas ela não sabe.
Anda rapidamente e uma procissão a segue, dobrando os cômodos por onde passa e desvia. Alguns soluçam, outros se entreolham. O rapaz observa, sustentando uma postura que não admite joelhos dobrados.

Essa é a porta. Você mora no alto desse morro. Essa é sua casa, mãe. Ela não responde, hesitando. Ele abre a porta. O céu, branco, é como o que ela se lembra. A grama do jardim que beija a casa está viva, movimentando-se verde, crescendo quase a olhos vistos.
Os pingos de chuva são grossos e cotucam doído seus ombros frágeis. Ela olha para o rapaz, como quem pensa em fugir, mas também como quem pensa em acreditar na primeira coisa que ouvir. Não existe mais nada em que acreditar?
Ela hesita, com medo do ridículo.  Arrisca:
Se essa sou eu, como sou? Pergunta a ele, como que o chamando.

De dentro da porta, ele tira apenas os sapatos, com urgência. De meias, olhando aos que observam, levando aos olhos as mãos, pede que deixem, está tudo bem, tudo bem. Caminha até ela como o domador de um animal arisco, que dissimula algum medo. Se distrai percebendo a água no meio do tecido que envolve seus dedos. Ela está olhando para aqueles pés, e ele, mais alto, ele está olhando para os olhos fundos dela. E dirige o olhar para algo que não se vê, mas está pousado no horizonte verde, enevoado. Ela acompanha o passeio que dão seus olhos jovens. E a chuva que cai escorre por seus cabelos e sua testa, fria.

Que lugar é esse?

Te importa mesmo onde é aqui? Alguém te impediu de fazer qualquer coisa que queira? Não é preciso medo. Ele pergunta e ela ouve, mas não o responde nem o olha nos olhos. Dá as costas a ele. São plantações e árvores. Passos recomeçam descalços. No portão do jardim velho com roseiras velhas, uma rua, que termina numa estrada onde não se vê o fim. É um vale, ela diz. Sua roupa ensopada, grudada ao corpo cobre a pele que ela não sente ser dela mesma. Abre os braços, curvando-se ao peso da água que escorre por seu corpo. Quer respirar fundo, mas soluça. Seu colo se divide convulsivo. Fecha a mão ao redor do punho, apoiando a palma das mãos no ventre, como se pudesse segurar-se a alguém que não ela mesma.

Tem aqui o instante de vida que todos querem ter quando desistem de tudo. E não é uma resposta.
Recomeço.

E, muitos passos depois, ruazinha abaixo, duvidosa de si mesma, percebe-o alguns metros atrás, silencioso, cobrindo os braços, com frio.
Ainda está de meias.

Então aquela é minha casa? Sim, é aquela. Ela levanta o queixo. Não preciso ficar aqui, mas quero.
E és meu filho? É isso? Sim, sou.
Por favor, não quero que me chame mãe.

Não se abraçam, pois são estranhos e apenas os íntimos se abraçam. E, caminhando na chuva, ao lado dele, aposta o nada que tem nesse lugar que dizem ser dela. Se promete, em silêncio, que se não for justa e cuidadosa o suficiente como ao acordar nova todos os dias, não valeria a pena todo o verde, tudo o que ardeu e toda a chuva daquele dia.

Decide apostar em si mesma, naquela vida que não conhecia e recomeçava.
Mesmo não sabendo o que foi ou o que seria.

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Galo de Briga

Maio 29, 2009

 

Quero lhe alcançar! Quanto inferno é que vou ter que atravessar e trazer meus calcanhares em brasa ansiando lhe ultrapassar os passos largos? Os ossos em minhas mãos se contraem sem direção para sobrar, olhos agudos e mãos sempre trancadas – palminhas abertas são como as flores que ganham mocinhas. Não duvido que esses tantos sofrimentos rasos não farão jus ao meu tempo desperdiçado tentando lhe ultrapassar. Não regresso dessa viagem rumo ao nada. Não duvido que um dia eu consiga lhe desbancar de todos os seus falsos altares, irei alcançá-lo, atravessá-lo com minhas garras. São todas estas setas que trago às costas – proteção contra cupidos interesseiros – época já amarrotada aquela das garotas ingênuas que não sabiam onde é que se metiam, onde estavam se escondendo. Quero lhe alcançar, onde é que mais vou ter que ir, quanto mais vou ter que mergulhar nas esquinas da cidade? Nessa paisagem escura e cinza, quero chover-lhe um céu amarelo, quero ventar fria na sua nuca. Quero atravessar seus olhos e todos os seus pensamentos. Vou alcançá-lo. E isso, um dia, ainda me fará plena.

 

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Cabo a rabo

Maio 23, 2009

Tomo um copo de distância

E engulo com paciência

Para ganhar espaço e velocidade

- força motriz!

E atravessar de cabo a rabo essa cidade

E voltar de rabo a cabo

Sem querer te encontrar em lugar nenhum, nenhum lugar.

Vou tomando meu copo de distância.

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Combustível

Maio 20, 2009

Desde que você diga,

Ai, que seja

Me maquina a engrenagem

Suspensa

E desde que você faça,

Passo, bandeira,

Não há nada que de você

Me defenda.

Combustível e fogo,

Não há nada em mim

Que quando tem você

Não me queima.

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pandora

Maio 14, 2009

Estamos enganados quando enxergamos caminhos
e achamos que nos guiam
e pensamos que somos plenos.

Estamos enganados porque amanhã a contramão é mão dupla
E amanhã o sorriso se afrouxa
E ali onde acordamos chove se ontem fazia sol.

Se somos guiados, enganados que somos,
o guia é o que não sabemos: positivo ou negativo
Explodem dentro dessa nossa caixa de pandora.
E é quase uma pequenina caixa de lembranças.

Amanhã há de ser.
Só não sabemos o que.
E é por isso que acordamos.
Vivemos pagando pra ver.

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Sem vergonha

Maio 11, 2009

Eu imploro

Ajoelhada aos pés das palavras que me caem

Que me venham desavergonhadas e muito bem encaixadas,

Meio que deslizadas e depois não me perguntem. Não digam nada!

Porque às vezes não quero mais dizer, e às vezes eu nem mesmo sei.

Dizer…

Eu imploro

Mas não espere que fique humilhada,

porque é delas que eu me desfaço quando não quero mais nada.

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Contra Etiqueta

Maio 1, 2009

Teus argumentos estão a me enozar…

As esquivas interrogam e provocam vinganças muito diferentes daquelas que já servi em pratos frios. Nem quero bater esse papo ou cair em tentação de colocar tudo em pratos limpos!

Prefiro essa louça suja, esse assunto mal acabado, esse resto de vinho intocado na taça ainda suja de batom. Se quiser, posso ainda misturá-lo com um pouco do meu veneno, que conhece tão bem. Deixo assim, a casa abandonada, aquele teu retrato fazendo companhia direta à poeira do chão. De você tenho preguiças. Penso em me convencer de um sumiço, tentando te mestrar na arte da ausência. Ando pensando em jogar tudo pro alto, baixelas de louça feitas em caco no chão dos seus pés descalços. Não quero desperdiçar esta sesta contigo, muito menos servir-me à mesa de alimento pro teu ego, em pratos limpos que iríamos, outra vez, sujar.

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Quando?

Abril 27, 2009

Socos sem direção no ar da graça… ando e nem vejo aonde vou

Pensando em todo mundo que já passou por mim

E vou ficando pra trás… quanto mais ando.

Ou será que quanto mais ando,

Mais os outros ficam pra trás?

Como é que tantos assim se perderam de mim?

Como foi que me perdi deles todos, meu Deus?

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Mal amor

Abril 19, 2009

Se eu atravesso a rua você pede pra abrir o sinal

Se eu tomo água você quer refrigerante

Se eu falo de poesia você fala em mecânica

Faz tempo que vou pulando amarelinha

E você dando uma de paternal

E se eu quero andar na madrugada você diz que já é tarde

Se eu fico de cara fechada você vira e dorme

Se eu durmo pela manhã você sai, você some.

Faz tempo que vou arranjando desculpinhas

E você fingindo que não faz mal.

Se leio você diz que estou longe

Se estou perto você se preocupa para que eu não grude

Se me afasto é porque não ligo

Faz tempo que não sei com quem eu lido

E você achando que está normal.

Assim vamos, mal, amor.

Muito mal.

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Misto

Abril 15, 2009

Sou de capas

E conteúdos.

De inteiros e miúdos.

De ciúmes e regaços.

De jogos e discursos.

Sou de grito e melodia.

Sou do descompasso e da

Harmonia

Sou do corpo

Da febre e dos instintos.

sou de misto.


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Deus e o Homem

Abril 11, 2009

Os pilares de sustentação do museu poderiam ruir assim que você assumiu seu posto de espião. Os vidros espelhados da biblioteca poderiam partir-se em tantas lascas afiadas assim que você notasse poder ver através deles sem pudores, sem ser retaliado. Qualquer ipê poderia ter migrado para dentro do seu quarto e enchido suas mãos de flores e lhe enraizado aos pés da sua cama (ainda assim não deixaria de ser sua boca fonte de seiva bruta).

Qualquer banca dominical de jornal poderia ter se fechado numa branca segunda feira, e você poderia ter passado por ela sem servir de brinquedo a qualquer felino desocupado. Qualquer estátua poderia ter vergado ao chão por não ter enfim encontrado em sua larga investida o objeto de tamanha procura. Qualquer ferida aberta ao meio fio da calçada poderia fazer de um mal dado passo um acaso propositado impedindo-lhe de encontrar qualquer boa alma que compactuasse com seus impulsos inconseqüentes. Ou com minhas idéias tortas. Canetas poderiam falhar e a única folha de papel que lhe houvesse à beira da mão poderia servir-se de ventos soprados pelo entardecer e escapar pela avenida, acabando pisoteada por qualquer manada humana que acaba de sair do trabalho.

Poderia não existir entusiasmo nesses comentários fotográficos que nós, os inconformados, sabemos muito bem tecer, e nunca haveríamos despertado o que jazia até então adormecido ao pé do ouvido. Não teríamos descoberto esses óbvios segredos que havíamos esquecido. Quem culpar pelas coincidências d“O estrangeiro” de Camus? Com quem ralhar e enfiar o dedo em riste no meio da fuça por fazer tanta sala ao bel prazer do acaso? (Deus! Linhas tão tortas! Ainda assim paralelas…) Que fazer senão empurrar barranco abaixo o menino que faz florir onde planta as mãos atrevidas? Onde guardar as partituras que tocamos ao piano, quando nos assusta o toque do telefone?

Que fazer se os cinco espinhos que levamos à ponta dos dedos são apenas doloridos e reponsáveis por essas febres e essas fúrias e esses olhos enfermos? Que fazer com essa doença que adquirimos e nos faz sempre recomeçar do zero? Com as flores daquele jardim, que despetalamos desesperados e aos prantos, desmentindo em vão que a última pétala em flor era de mal me quer, o que fazer? Se cata-ventos não existem mais ou existem a qualquer um e valsas são apenas para serem guardadas em suas vitrolas empoeiradas e cartas em pequeninas caixas de lembrança que se perdem sem querer no meio da mudança?

O que mais podemos fazer senão aceitar como um avozinho corcunda mal-acomodado no banco da praça vazia, aceitar a fatalidade e o pão de cada dia? Senão negar inutilmente a comodidade aos broncos, a cumplicidade que encontramos apenas em sonhos e silêncios que jamais existirão na turbulência das cidades grandes?

Deve de ter sido Deus por alguma escolha mal respondida que escreveu: fôssemos obra prima do acaso. E de propósito chega o diabo e nos oferece a obra última do desejo. Consumidos e alimentados que fomos pelas fúrias apaixonadas, consumamos, intensos, o que podíamos na pressa de saciar a sede que nunca cansaremos de saciar.   

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Pólvora

Abril 1, 2009

 

Me acende esse fósforo – e economiza. Meu pavio curto dá pro único barril de pólvora que nos reservei. No seu sopro que apaga e alimenta, me avisa de onde vem tanta mentira e tanto ar. Me devolve a atmosfera que você aprendeu a roubar.